Alagoas

Ufal amplia ações de acessibilidade na pós para estudantes surdos

PPGLL já formou mais de 20 pesquisadores surdos e fortalece políticas de permanência com uso da Libras no ambiente acadêmico

Ascom Ufal 10/04/2026
Ufal amplia ações de acessibilidade na pós para estudantes surdos
Matheus Victor dos Santos, do mestrado, o professor e coordenador do PPGL, Alexandre Melo de Sousa e Daniel Cícero dos Santos Barbosa, do doutorado

A Universidade Federal de Alagoas (Ufal) tem ampliado, nos últimos anos, suas ações de acessibilidade, fortalecendo o compromisso com uma universidade cada vez mais inclusiva e alinhada ao seu papel social de atender à diversidade de públicos. Esse movimento se concretiza em diferentes iniciativas acadêmicas, como no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura (PPGLL), que, desde 2016, tem garantido o acesso e a permanência de estudantes surdos.

Um exemplo disso são os discentes Matheus Victor dos Santos, do Mestrado, e Daniel Cícero dos Santos Barbosa, do Doutorado, cujas trajetórias refletem os avanços institucionais na promoção da inclusão e da valorização da Língua Brasileira de Sinais (Libras) no ambiente universitário.

Os estudantes são ingressantes das novas turmas do programa, e, de acordo com o coordenador do programa, Alexandre Melo de Sousa, são parte de uma trajetória de formação contínua de mais de 21 estudantes surdos formados pelo PPGLL em dez anos, um número significativo em comparação a outras instituições.

“Temos uma política institucional de inclusão alinhada às diretrizes legais vigentes no Brasil, que asseguram o acesso, a permanência e a participação de diferentes grupos sociais na pós-graduação. Nesse sentido, o programa acolhe a diversidade de pesquisadores interessados nos estudos de língua, linguagem e literatura, incluindo pessoas surdas, indígenas, quilombolas, trans, promovendo equidade e respeito às especificidades linguísticas, identitárias e culturais. Já contamos, inclusive, com estudantes surdos que realizaram doutorado sanduíche na Alemanha, evidenciando a internacionalização com inclusão. A presença de pesquisadores surdos fortalece o ambiente acadêmico, ao incorporar a Libras como língua de instrução e pesquisa, ampliando perspectivas teóricas e interacionais e enriquecendo a formação de toda a comunidade acadêmica.”, explicou.

Inclusão e acessibilidade

O coordenador destacou que as ações do PPGLL são pensadas para criar um ambiente de acessibilidade constante para os estudantes, distanciando cada vez mais o apagamento que muitos sofrem ao tentar ingressar no ensino superior e na pós-graduação:

“A acessibilidade é garantida por meio de diferentes estratégias institucionais, em conformidade com a legislação brasileira vigente, incluindo a presença de tradutores e intérpretes de Libras em sala de aula e a atuação de alguns docentes com proficiência na Libras. Eu, por exemplo, oriento e dou aulas em Libras, discutindo fenômenos linguísticos na língua de instrução do estudante surdo. Isso contribui significativamente para a compreensão, a autonomia acadêmica e a qualidade da formação”, reforçou.

Os recém-chegados também evidenciam como a diversidade linguística contribui para o fortalecimento do programa. A gramática da Libras, diferente da língua portuguesa, exige processo de ensino e aprendizagem específicos, o que tem sido considerado nas práticas pedagógicas.

“O professor passa a compreender melhor a diversidade linguística, a pensar metodologias que atendam tanto surdos quanto ouvintes, além de processos de avaliação próprios. E isso acontece quando a língua dele é respeitada, quando as aulas e orientações consideram essa realidade e quando a Libras circula de fato dentro do programa. A coordenação, os docentes e os próprios colegas aprendem muito com essa convivência”, destacou.

Daniel é formado em Letras-Libras pela Ufal, teve seu Mestrado voltado para o ensino e agora, em seu Doutorado, se aventura pela linguística. Ele conta que a recepção do PPGLL aos estudantes surdos difere de outras experiências que teve em sua formação e que, mesmo com desafios, sente-se verdadeiramente compreendido.

“Eu não tive essa experiência de orientação com professores, esse contato mais próximo, mas aqui sim. Neste momento, tenho a oportunidade de trocar experiências com outros professores. E é um desafio porque a gente ainda está aprendendo o português, porque, no nosso contexto enquanto surdos, tivemos muita dificuldade com a língua portuguesa e também com a acessibilidade da nossa língua. Mas hoje temos, e isso é muito importante na sala de aula do mestrado e do doutorado, para que a gente tenha, de fato, acesso ao conteúdo”, disse o doutorando.

Para Matheus, que também é egresso de Letras-Libras e agora é estudante de mestrado, contar com profissionais que saibam se comunicar com eles, sem dúvida, vai ser o diferencial na formação de cada um. “Quando os surdos vão ler algum texto em português, muitas vezes não compreendem bem, porque há muitas metáforas e palavras difíceis. Então, a gente sempre tem o auxílio do intérprete para ajudar a construir os sentidos e trocar essas informações. Isso melhora muito o aprendizado. O intérprete é fundamental nesse processo. É um direito, não é um favor. Esse momento é um desafio, não é fácil estar nesse contexto de pesquisa, especialmente na área da linguística, que é muito importante para mim nesse processo acadêmico”, enfatizou.

“É um direito, não é um favor”

Apesar da recepção e acolhimento recebidos pelos estudantes no contexto do PPGLL, eles ainda relatam os percalços encontrados durante o processo. Eles contam que, para além da sala de aula, muitas vezes, no ambiente universitário, acabam esquecendo a existência de estudantes surdos, colocando-os, mais uma vez, em limitações.

Para Matheus, quanto mais pessoas entenderem que a acessibilidade é um tema urgente, mais rápido o ambiente universitário será mais inclusivo. “Eu compreendo que esse aprimoramento precisa acontecer na universidade como um todo, não só no Letras-Libras ou apenas com intérpretes em alguns programas. É necessário ampliar a acessibilidade em todos os cursos, em todo o campus, para que mais pessoas surdas possam se inserir em diferentes áreas. O intérprete é fundamental nesse processo. É um direito, não é um favor”, destacou.

Daniel complementou a fala de seu colega dizendo: “Isso também vale para eventos, palestras, reuniões, até na Reitoria, para resolver questões administrativas. É importante que haja intérprete nesses espaços também, para garantir acessibilidade em toda a universidade”, disse.

Vale ressaltar que, na Ufal, a acessibilidade linguística é garantida com tradução e interpretação em Libras em todas as ações na universidade, mediante a solicitação de gestores responsáveis, há mais de dez anos. Mais informações sobre o serviço podem ser encontradas no nosso site.

Ensino de qualidade que expande fronteiras

O coordenador contou que, desde que o curso fundamentou essa integração entre surdos e ouvintes, a qualidade das pesquisas tem ganhado uma força exponencial, chamando a atenção, inclusive, de estudantes de fora do estado.

“Na turma mais recente, por exemplo, cerca de 15 estudantes desenvolvem pesquisas com foco em Libras e outras línguas de sinais. Isso também é importante para mostrar que, no Brasil, não existe apenas a Libras, mas também línguas de sinais indígenas, por exemplo. Antes, o foco era majoritariamente nas línguas orais. Hoje, temos grandes projetos voltados às línguas de sinais, e isso só é possível porque os surdos estão aqui, vivenciando e trazendo novas perspectivas. Esse movimento também atrai estudantes de outros estados. Antes, muitos precisavam ir para o Sul, especialmente para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que é referência nessa área. Hoje, recebemos alunos do Piauí, Paraíba, Ceará, Minas Gerais, entre outros lugares, porque encontram aqui a Libras em uso real dentro do ambiente acadêmico”, reforçou o coordenador.

Alexandre acredita que é importante que os ouvintes conheçam as culturas surdas, entendam como o surdo se comunica e interage, e, com essa integração, toda a universidade só tem a ganhar.

“Durante muito tempo a sociedade teve um olhar equivocado, achando que o surdo  não seria capaz de desenvolver pesquisas. Os surdos e as surdas têm desenvolvido pesquisas potentes e de grande relevância para a ciência e para a sociedade. Essa convivência quebra paradigmas. Os estudantes interagem, discutem, compartilham dificuldades e aprendizados. E, como a pós-graduação é baseada em diálogo, trabalho em grupo e redes de pesquisa, é fundamental que haja uma política institucional que garanta a presença ativa da Libras. Aqui, o estudante surdo não está à parte. Ele está integrado e participa de todas as atividades. Com a chegada desses estudantes, o programa vem se transformando, e as pesquisas têm seguido novos caminhos”, finalizou.