Alagoas

Vereador Kelmann tenta defender JHC, mas expõe que prefeito queria o PL para a família

Ao justificar a saída de JHC do PL, vereador revelou o ponto central do impasse: o prefeito não aceitava abrir espaço para Arthur Lira e Alfredo Gaspar e queria reservar a chapa para mulher, mãe e aliados do círculo íntimo

Redação 22/03/2026
Vereador Kelmann tenta defender JHC, mas expõe que prefeito queria o PL para a família
Kelmann tentou defender JHC, mas expôs realidade centralizadora

MACEIÓ — A tentativa do vereador Kelmann Vieira na tarde deste domingo (22) de justificar a movimentação partidária do prefeito de Maceió, JHC, produz um efeito político inverso ao pretendido. Ao sair em defesa do prefeito e atacar críticas à sua saída do PL, Kelmann expôs, ainda mais, o núcleo do impasse: JHC queria manter para si o controle absoluto da chapa e o direito de indicar nomes da própria família para a disputa de 2026.


Na publicação, Kelmann afirma que JHC deixou o PL (na verdade foi destituído conforme carta do Presidente nacional Valdemar da Costa Neto) porque teria sido chamado a Brasília e informado de que poderia até ser candidato ao governo, mas precisaria aceitar Arthur Lira para o Senado e Alfredo Gaspar na outra posição, sem poder indicar livremente um nome de sua preferência. O vereador pergunta, em tom de protesto, por que JHC não poderia indicar, por exemplo, a esposa Marina Cândia, Davi Davino, a mãe Dra. Eudócia ou outro nome de sua confiança.


A fala, no entanto, em vez de absolver o prefeito, acaba reforçando a crítica que já circula nos bastidores: JHC não permaneceu no PL porque queria um partido moldado aos interesses de sua própria casa, com espaço prioritário para mulher, mãe e grupo íntimo, sem admitir a convivência com outros atores importantes da política local e estadual.



Defesa que virou confissão política


Kelmann tentou vender a ideia de que JHC foi vítima de imposição externa. Mas a narrativa escancara outra leitura: o prefeito só aceitaria permanecer num arranjo em que ele pudesse decidir quase tudo, do cabeça de chapa aos nomes ao Senado, passando por vice, suplência e demais composições.


Em política, sobretudo numa eleição majoritária, isso não é visto como força. É visto como centralização excessiva, personalismo e dificuldade de composição.
O problema é que Alagoas não é um condomínio político privado, nem a eleição para governador se vence apenas com seguidores, curtidas e engajamento digital. Uma disputa estadual exige aliança, partilha de espaço, negociação e entendimento de que ninguém governa sozinho, muito menos vence sozinho.

O “JHC do povo” e o JHC da família


Ao defender que JHC teria o direito de indicar a esposa, a mãe ou outros nomes próximos, Kelmann ajuda a cristalizar uma imagem que adversários já exploram com intensidade: a de um prefeito que, embalado pelo sucesso nas redes sociais, passou a agir como se fosse autossuficiente, como se pudesse dobrar partidos, enquadrar aliados e desenhar a política alagoana conforme a conveniência de seu projeto pessoal.


A crítica que emerge daí é dura: JHC estaria se comportando como um reizinho, um imperador de si mesmo, convencido de que popularidade virtual basta para substituir a política real. Inflamado e inflado pelas redes, teria passado a acreditar que pode tudo, inclusive impor aos partidos uma lógica familiar e patrimonial do poder.


Ninguém vence sozinho


É justamente aí que mora a principal contradição do discurso de Kelmann. Ao tentar apresentar JHC como injustiçado, o vereador apenas revelou o tamanho da exigência do prefeito para continuar no PL: queria liderar, indicar, controlar e ainda reservar espaços estratégicos para nomes da própria família.


Mas a política majoritária tem regras menos narcisistas e mais duras. Ninguém vence sozinho. Nenhum projeto ao governo de Alagoas se sustenta apenas no carisma de rede social ou na força de uma bolha digital concentrada na capital. O interior pesa. Os grupos pesam. Os partidos pesam. As alianças pesam.


Por isso, longe de soar como gesto de independência, a movimentação de JHC começa a ser lida por muitos como sinal de um problema maior: a dificuldade de conviver com limites, de dividir protagonismo e de compreender que liderança não se confunde com vontade pessoal.

O recado dos bastidores


No fim, a defesa de Kelmann acabou deixando no ar uma verdade inconveniente para o grupo de JHC: o prefeito não saiu apenas porque queriam impor nomes a ele; saiu também porque ele próprio não aceitava abrir mão de transformar a chapa em extensão de seu núcleo familiar e político.
E isso, numa eleição grande, pode ser bem mais perigoso do que parece.
Porque rede social ajuda. Marketing impulsiona. Popularidade empolga.
Mas eleição para governador não se ganha com o rei na barriga.
Muito menos com a ilusão de que um homem, por mais forte que seja em Maceió, consegue tudo sozinho em Alagoas.