quinta-feira, 18 de julho de 2019

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Pós-visão

Com a hegemonia da globalização financeira, especialmente do capital especulativo, houve uma radical transformação não apenas da economia mundial, mas nas relações pertinentes à vida política, seja a nível regional ou internacional.

Porque o mando das finanças em escala global impôs aos povos novos paradigmas, quase sempre negativos, e uma realidade indubitavelmente trágica, implicando num declínio do progresso humano, na medida em que a acumulação capitalista rentista vem provocando óbvia queda do crescimento econômico mundial. Como se diz, quando há problemas, siga a pista do dinheiro.

Por exemplo, a projeção do crescimento da economia europeia para 2019 será, em média, de um por cento. Em média, porque há nações que vão ter índices negativos em seu PIB. Quando se comenta sobre as explosões sociais que ocorrem no velho continente, é impossível fazê-lo abdicando de uma análise dessa crise econômica generalizada.

Do ponto de vista político, a imposição dos ditames dos especuladores financeiros alteraram radicalmente a autonomia das lideranças regionais em quase todo o planeta submetendo-as às suas diretivas ou restringindo as suas capacidades de comando.

Os presidentes das nações, na maioria delas, possuem autonomias limitadas, são reféns de políticas econômicas internacionais, da vigilância da grande mídia global, hoje associada ao capital financeiro mundializado.

De tal forma que as principais diretrizes internacionais que devem ser obedecidas pelos Estados nacionais são exigências absolutamente favoráveis ao capital financeiro global, restando aos líderes regionais pequenas margens de manobras soberanas.

A capacidade de realização de um presidente de República, ou de outro cargo similar, é hoje muito menor que em décadas anteriores, especialmente se considerarmos o novo milênio.

A financeririzacão especulativa reina, quase absoluta, nas linhas políticas globais. Como disse o Historiador camaronês Achille Mbembe: o grande choque na primeira metade do século XXI não será entre religiões e civilizações, como tentam nos fazer crer, mas de um longo e mortal jogo entre a via democrática e o capitalismo financeiro.

Não é sem razão que hoje há em voga duas ideologias absolutamente antípodas que se digladiam em escala global: a Identitária, individualista autocentrada, excludente e narcisista, versus a conservadora, regressiva e intolerante com as minorias.

Atualmente não existe uma proposta ou uma visão de mundo por parte das principais forças políticas em ação. Trata-se de uma época da pós-visão, sem perspectivas de projetos no presente ou para o futuro.

De certa forma o nipo-americano Francis Fukuyama, profeta do Fim da História ao final do século XX, surgida com a debacle da URSS e a hegemonia unipolar dos Estados Unidos, foi precursor desse atual discurso niilista, sem rumos e sem luzes.

Mas assim como Fukuyama foi desautorizado pela História com o surgimento de uma nova era multipolar em turbulenta transição, com novos protagonistas globais em ascensão, também assistiremos à construção de novos cenários nessa queda de braço entre o governo das finanças globais e o governo das nações, o governo dos povos. Entre a democracia versus o obscurantismo e as trevas. Esse será o grande confronto do novo milênio.

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