quarta-feira, 16 de outubro de 2019

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O olhar do outro

Cumprimentar o público durante a entrada no teatro tornou-se uma prática carinhosa da atriz Denise Fraga – surpresos, os espectadores sentiam-se, de uma certa forma, integrantes do espetáculo. Com Eu de Você, no entanto, seu novo trabalho que estreia na quinta-feira, 19, no Teatro Vivo, o grau de intimidade atingiu uma faixa superior, com ingerência no próprio texto dramatúrgico. “Aqui, falamos com leveza de temas delicados, marcados, muitas vezes, pela dor e o sofrimento”, observa a atriz.

De fato, Eu de Você revela-se uma bem costurada dramaturgia que reúne histórias e sentimentos da própria Denise, de citações de escritores renomados e, principalmente, de vivências reais de pessoas anônimas, coletadas ao longo de seis meses. “Esse trabalho se inspira em um projeto iniciado quando montamos peças de Bertolt Brecht, que nos ensinou que a arte pode ser o degrau para o sublime”, explica a atriz, que protagonizou e produziu A Alma Boa de Setsuan (2008) e Galileu, Galilei (2015), textos que podem ser incluídos no que o autor alemão chamava de “experimentos sociológicos”.

O novo espetáculo começou a tomar forma quando Denise, o diretor Luiz Villaça e o produtor José Maria decidiram criar um trabalho em que a comunicação direta entre as pessoas – como o contar de uma história – fosse o aspecto principal. “Vivemos um tempo que nos convida ao isolamento, ao medo do convívio, ao isolamento. Daí veio a ideia de pedirmos que nos enviassem as suas histórias.”

O convite foi prontamente aceito – ao todo, chegaram espontaneamente mais de 300 depoimentos, entre casos engraçados e confissões melancólicas. Foi aí que o trio selecionou aqueles que traziam uma alta carga de humanismo. “Ficou muita coisa boa de fora, o que me deixou angustiada, mas escolhemos histórias que são, como gosto de brincar, como canções do Roberto Carlos: todo mundo conhece ao menos um trecho”, conta Denise. O texto final foi assinado pelo autor e diretor Rafael Gomes e não trazem relatos completos, mas fragmentos bem costurados. “Lembranças reais inspiraram a dramaturgia para contar o que, ao final, parece ser uma história única”, observa Villaça.

Uma avaliação superficial pode sugerir que a peça se assemelha ao quadro Retrato Falado, exibido no programa Fantástico, da Globo, em duas temporadas, entre 2000 e 2007. Mas, na verdade, apenas o ponto de partida é o mesmo: apoiar-se em relatos reais. Como produto original, Eu de Você é uma peça sofisticada, que une contação de histórias, trilha sonora ao vivo (executada pelas musicistas Fernanda Maia, Clara Bastos e Priscila Brigante) e projeção de imagens de pessoas que contribuíram de alguma forma com o espetáculo.

Em cena, é possível ouvir frases reveladoras, como a de um rapaz chamado Bruno: “Moro perto do aeroporto e os aviões que passam por cima da minha cabeça me ensinaram a olhar para cima”. Ou poéticas, como a dita por Wagner: “Os temporais continuam. Com eles, eu me acostumo. Mas não posso suportar o tempo nublado por muito tempo. Há que buscar a claridade”. Ou ainda sinais de uma vitória pessoal, como a confessada por Karina: “Depois da sensação de que você passou anos se olhando pelos olhos das outras pessoas, finalmente você recoloca os seus olhos de volta e passa a olhar para você por você”.

Mesmo radiante com o que chama de “sinfonia de humanidades”, Denise resistia ao fato de ficar sozinha no palco. “Nunca fiz um monólogo por gostar justamente da troca entre atores em cena”, conta ela, que se sentiu mais confiante quando os criadores perceberam que os depoimentos se tornariam ainda mais poderosos se ganhassem a companhia de citações de autores clássicos. “Gosto de brincar dizendo que quem lê Dostoievski ou Fernando Pessoa vai no mínimo sofrer mais bonito, porque vai sofrer com a cumplicidade dos poetas.”

Finalmente, seus colegas de criação pediram que Denise incluísse algumas de suas histórias pessoais, como a habilidade da mãe em nadar e a do pai em cantar. E é justamente essa fusão de memórias que transforma sua atuação em um desafio – utilizando, como poucas vezes, todos seus inúmeros recursos artísticos, Denise vai da secretária angustiada ao garoto que se descobre em meio a um assalto, das dores de Fernando Pessoa à própria Denise e seu medo de enfrentar o mar. Não satisfeita, ela corre pelos corredores do teatro, em busca de espectadores que a ajudem a narrar “aquele manancial de vulnerabilidades”. E a plateia, mesmo a parcela que tem pavor de ser chamada a participar, a recebe de braços abertos, emocionada. “De tão comuns, as histórias poderiam ser contadas por praticamente qualquer pessoa que está no teatro”, acredita o produtor José Maria.

E o final, que não convém revelar pela surpresa, coroa a tapeçaria que Denise foi costurando com todos relatos em pouco mais de uma hora, destacando o sublime do cotidiano por meio da arte. “Foi um processo sofrido, pois não sabíamos qual seria o resultado”, confessa Denise, cuja resposta recebe com o público, dessa vez, a abraçando na saída.

Autor: Ubiratan Brasil
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