terça-feira, 20 de agosto de 2019

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O massacre em YA-RÁ-GUÁ

Por Carlito Lima

Ya-Rá-Guá (enseada do ancoradouro) é o nome indígena originário do bairro de Jaraguá, o Marco Zero, onde começou a cidade de Maceió. Quando deu início a era da industrialização no mundo, navios de toda parte fundeavam no ancoradouro natural na enseada de Jaraguá. Naquela época o bairro teve um grande desenvolvimento urbano e econômico devido ao efervescente comércio. Jaraguá vivia na euforia de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados para o consumo da população. O ancoradouro natural tinha uma ponte de desembarque e Jaraguá tornou-se um dos portos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma família. Augusta era a moça mais bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte, rude e de Dona Sinhá. Ele ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, ela corria na praia, subia nas amendoeiras da Avenida da Paz, a todos encantava. Mas só um ela se agradava, Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem aos 18 anos, forte musculatura, o corpo forjado carregando sacos de açúcar na ponte de desembarque; depois se tornou embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da Recebedoria. Quando o cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se, ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo o cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 10 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações singravam na enseada da praia da Avenida – Jaraguá, os barcos competiam na ornamentação, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça da Recebedoria. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado de Penedo numa barcaça. Os amigos encheram a festa na casa de Augustão, pai da aniversariante, a moça mais bonita da cidade.

 O Cabo Sobral, ao longe, assistia a animação na casa de Augusto, ficou com despeito quando viu pela janela Gumercindo dançando coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, tentou entrar na casa de Augusto, foi barrado na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O cabo quis alterar, apareceram alguns estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, o Cabo Sobral, policial arruaceiro, retornou com mais cinco policiais. Foram rechaçados a murros e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixeirada deixou um policial morto estirado na rua.

Cabo Sobral e seus homens bateram em retirada. Retornou ao quartel. Armou mais de 20 soldados, fez um discurso incitando vingar o companheiro assassinado pelos estivadores. Montados a cavalos galoparam até a praça atropelando e atirando em quem estivesse pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram feridos pelas balas dos policiais. Na praça, os ambulantes, que nada tinham a ver com a história, correram para o interior da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram na igreja, a cavalo, atirando em todos inocentes.

No dia seguinte o governador soube da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 20, fossem ajuntados em uma carroça de bonde, e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá.

O massacre foi abafado pela imprensa. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, não houve um registro sobre a ocorrência. Até a Igreja foi conivente para abafar o caso, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por 22 anos. Mas o povo, os moradores do bairro de Jaraguá não esqueceram. Ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do insano massacre de Jaraguá.

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