segunda-feira, 22 de Abril de 2019

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Pais devem tirar dúvidas de filhos sobre tragédia sem julgá-los, diz Especialista

Diante de uma tragédia como a que ocorreu em Suzano na última quarta-feira, 13, quando dois jovens atiraram em alunos e funcionárias da Escola Estadual Professor Raul Brasil, os pais podem se questionar sobre o que devem fazer para tirar as dúvidas dos filhos sobre o caso sem aproximá-los dos detalhes violentos do ataque. Desviar do assunto é uma atitude que deve ser evitada, assim como oferecer informações em excesso, que podem passar a inquietar as crianças e os adolescentes.

Especialista em gestão do estresse pela Universidade de Harvard, o psicólogo Armando Ribeiro diz que é preciso ajustar o discurso de acordo com a faixa etária e que o diálogo não deve ser feito em um momento em que a criança ou o adolescente está distraído. A curiosidade sobre a tragédia não deve ser julgada, mas tratada como um momento para entender o que o filho compreendeu ao ser exposto aos fatos.

Ainda segundo Ribeiro, a discussão também pode se estender ao acesso a imagens fortes e para a orientação dos jovens sobre o tipo de conteúdo que eles acessam em smartphones ou quando estão na internet. “A gente precisa ensinar a fazer uma gestão dessas informações. Depois que soube do acontecido, (a pessoa) tem de aprender a se autocontrolar para não ver mais nada. É um exercício que as escolas devem fornecer, mas tem de acontecer em casa. Essa avalanche de conteúdo deixa as pessoas soterradas por informações que elas não conseguem digerir.”

Como conversar com os filhos sobre um assunto tão trágico como o massacre na escola em Suzano?

Não pode se negar os fatos. Um dos grandes erros é querer desviar do assunto, achando que as crianças não têm compreensão. Isso faz com que elas interpretem o que aconteceu do seu próprio jeito. Para conversar sobre o assunto, a fala tem de ser adaptada para o grau de compreensão de cada faixa etária. Os pais não podem falar como faria com um adulto. Muitos estudiosos dizem que, antes de falar sobre qualquer assunto sério, é preciso criar uma conexão, estabelecer um lugar onde a fala tem de ter presença. Tem de ser olho no olho e no momento em que o adolescente está com atenção. Não pode ser quando ele está jogando videogame nem com o pai com um smartphone na mão. É interessante perguntar como eles entenderam o fato e o que eles pensam sobre aquele assunto. É importante também retomar a possibilidade da escuta sem julgamentos. Hoje, as crianças e os adolescentes são hiperinformados e o problema está em como se faz a interpretação dessas informações. Os pais têm de ajudar os filhos a digerir de forma construtiva essa avalanche de notícias sem dar lição de moral.

O senhor falou em adaptar a fala de acordo com a faixa etária. Como os pais podem fazer isso?

Não se deve falar para uma criança com o mesmo grau de descrição que se falaria com um adolescente. Se tem um filho maior, que vai entender como aconteceu, esse mesmo grau de detalhes não deve ser oferecido para uma criança menor. Os pais devem entender as dúvidas e devem evitar, mediante as várias faixa etárias, dar muita descrição do sofrimento e da violência em si

Os jovens não têm contato apenas com as notícias das tragédias, mas com imagens que acabam sendo enviadas para seus celulares. Como é possível lidar com isso?

Os próprios pais não conseguem fazer um gerenciamento correto dessas informações que chegam para eles, mas toda família precisa fazer uma conversa com presença, tentando ver como ele enxerga a situação. Depois que soube do acontecido, (a pessoa) tem de aprender a se autocontrolar para não ver mais nada. É um exercício que as escolas devem fornecer, mas tem de acontecer em casa. Essa avalanche de conteúdo deixa as pessoas soterradas por informações que elas não conseguem digerir. Os pais têm de ensinar a fazer um gerenciamento de informações que não têm utilidade prática para a vida e falar que tem imagem que não vale a pena ver. As famílias precisam ter momentos de desconexão das redes, porque vivemos em um mundo em que as informações vêm por todos os meios. As pessoas precisam estar jantando e não estar cada uma conectada no seu telefone, porque isso vem destruindo os raros momentos de reunião familiar. Não percam os filhos dentro de casa.

Qual impacto o contato com esse tipo de informação pode causar nos jovens?

Existe o transtorno de estresse pós-traumático, que a gente achava que era resultado apenas em pessoas que viveram o trauma. Sabemos que uma pessoa pode desenvolvê-lo apenas por acompanhar notícias traumáticas, que podem fazer com que algumas crianças que tenham alguma vulnerabilidade apresentem sintomas desse transtorno, como excesso de ansiedade, tristeza, taquicardia, memórias da cena que acompanhou na televisão ou no celular, pesadelos recorrentes e medo de ir para a escola.

O que pode ser feito se, durante a conversa, os pais descobrirem que os filhos vivem uma situação problemática na escola?

As famílias não podem esconder a necessidade de buscar ajuda psicológica ou médica. Se o filho está triste, esquivo, tem medo da escola, medo de colegas ou brincadeiras, a busca por uma orientação psicológica deve fazer parte do desenvolvimento saudável. Vivemos muito tempo de preconceito por causa da busca por ajuda psicológica, mas a violência desmedida é resultado também dessa cultura que hostiliza a procura por ajuda emocional.

Autor: Paula Felix
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