sexta-feira, 19 de Abril de 2019

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Memória: Tribuna relembra os 66 anos sem Graciliano Ramos

Por Redação com LA

Graciliano Ramos

Há 66 anos, no dia 20 de março de 1953, (completados hoje) o Brasil perdia um dos maiores escritores da história literária nacional: o alagoano Graciliano Ramos, o Velho Graça, ou Graci, como era chamado pelos mais íntimos.

Graciliano adoeceu gravemente e acabou morrendo, vítima de um câncer de pulmão, aos 61 anos, no Rio de Janeiro. E foi no Rio que ele decidiu viver depois de ter sido preso por causa de sua ligação com o comunismo, durante a ditadura do presidente Getúlio Vargas. A prisão do autor rendeu o livro “Memórias do Cárcere”, que narra no capítulo 20, do 4° volume, o episódio marcante em que Olga Benário, mulher de Carlos Prestes, é entregue à Gestapo (GeheimeStaatspolizei), a polícia secreta da Alemanha nazista.

Junto com Jorge Amado, José Lins do Rego e Raquel de Queiroz, Graciliano faz parte da segunda fase do modernismo, na década de 30, um movimento cultural que teve como principal característica o regionalismo. E era esse regionalismo que o Velho Graça conhecia tão bem. Vidas Secas e São Bernardo, duas de suas principais obras, retratam tão fielmente as dificuldades e mazelas da vida do sertanejo que só quem viveu, e vive, por estas terras saberia narrar os fatos com tamanho realismo. E justamente ele, que passou boa parte de sua vida nas terras secas de Alagoas.

Além de escritor Graciliano Ramos também foi prefeito da cidade de Palmeira dos Índios (1928 – 1930)

Sua morte deixou uma lacuna que não se pode preencher. E um fato curioso, mas também triste, é que Ricardo Ramos, escritor alagoano, filho de Graciliano com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, faleceu na mesma data que Graciliano, em 20 de março, mas do ano de 1992, em São Paulo.

O neto dele, o também escritor Ricardo Ramos Filho, que seguiu dignamente a carreira do pai e do avô, nasceu um ano após a morte de Graciliano, mas sente a dor como se tivesse convivido com ele a vida inteira. E de certa forma conviveu, seja por meio dos pais ou dos livros escritos pelo Velho Graça, nos quais se debruçou a ler ainda criança. “Vinte de março tornou-se uma data especialmente dolorosa na família. No ano de 1953 perdemos Graciliano, em 1992 partiu seu filho, meu pai, o também escritor Ricardo Ramos. Ambos em uma sexta-feira, mais ou menos no mesmo horário. O primeiro de câncer no pulmão e o outro no fígado. Para mim, portanto, data de dupla recordação. Nela penso no avô que não cheguei a conhecer, pois morreu quase um ano antes de meu nascimento, e sinto saudade muito forte de papai. Costumo brincar que não saio de casa no dia. Os escritores da família parecem não ter sorte com vintes-de-março”, disse Ricardo Ramos Filho.

Segundo ele, Graciliano deixou para o mundo principalmente o que escreveu. “Foi um escritor sóbrio, enxuto, poucos souberam dizer tão bem o que desejavam. Seu texto é profundamente marcado, prescinde de assinatura. Conseguir estilo tão pessoal e característico é para poucos”, comentou.

E destacou. “Se tivesse convivido com meu avô, provavelmente, conheceria sua faceta humana. Seria um lado importante para mim. Teria, contudo, que separar o escritor do homem, coisa nem sempre tão fácil. Acho importante distinguir bem o artista e sua obra da vida cotidiana dele. Não sei se aprendemos alguma coisa com a personalidade de alguém. Sei, tanto pela crônica familiar, como pelo que se costuma dizer dele, que Graciliano era pessoa discreta e íntegra. Talvez eu não seja tão discreto, mas busco integridade o tempo todo”, afirmou.

Integridade era mesmo o lado forte de Graciliano Ramos. Quando administrou a prefeitura de Palmeira dos Índios (1928-1930) exerceu o cargo com bastante disciplina e, sobretudo, honestidade. Foi considerado um prefeito revolucionário e ético. Prestava contas do balanço da prefeitura com tantos detalhes que chamava a atenção da imprensa. Em um destes relatórios, Graciliano narrava ao governador as despesas e a receita do município que tinha atingido, em 1929, um valor acima do que existia em “caixa” no início do ano. Ele explicava como tinha alcançado os números favoráveis. “E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoa que não precisavam deles e pus termo à extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores”, relatou Graciliano Ramos.

Passados 66 anos, Graciliano continua vivo na memória de muita gente. Seu nome é cada vez mais exaltado pelos admiradores de sua obra e de seu caráter indiscutível, seja na presença de uma escultura na praia, em Maceió, ou nas dezenas de homenagens que autores alagoanos fazem, em forma de livro, para ressaltar a importância do ilustre “colega” de profissão. E mesmo que a data não seja comemorativa, uma semana antes do aniversário de morte do escritor, o Conselho Estadual de Política Cultural aprovou a concessão, por parte do Estado, do terreno do auditório da Casa Museu Graciliano Ramos ao Município de Palmeira dos Índios. A mesma casa onde ele conviveu com seus pais e seus irmãos, e que precisa de mais cuidados. Ali está a história, a vida e as memórias de um dos maiores escritores que este país já teve.

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