terça-feira, 11 de dezembro de 2018

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A volta ao mundo em 5.237 dias

Por Carlito Lima

Anunciada tinha apenas 10 anos quando aconteceu o acidente de carro. Seu pai morreu e ela teve sérias fraturas, passou mais de dois meses no hospital, sobreviveu graças a uma promessa, segundo sua mãe, mulher controladora e mandona. Quando Anunciada completou 16 anos foi internada num convento, cumprindo a promessa de Dona Zélia. A jovem tornou-se frágil, temente a Deus e à mãe, aceitou resignada seu destino, ser freira. Estava em paz consigo, dois anos interna preparando-se para o noviciado, quando apareceu no convento o Padre Ramalho, ainda moço, beirando os 30 anos, alto, forte, alegre e bonito. Mexeu no coração e nas vísceras de Anunciada. A imagem do padre deu-lhe inquietude, desconcentração, insônia. A recíproca foi verdadeira, o padre encantou-se com a morenice, os olhos amendoados, os cabelos negros daquela noviça meiga. O Demônio atenta, e fez com que Anunciada ficasse como ajudante do padre durante as missas e preparativos. Com mais dois meses, os dois jovens estavam enfeitiçados. Aconteceu o previsto pelo Cão. Numa noite de lua nova, por trás da sacristia, o sangue escorreu pelas pernas de Anunciada. Continuaram encontrando-se, amando-se, até que um dia a madre superiora teve certeza que havia alguma coisa entre os dois, só pelos olhares e tomou uma decisão. Entregou a freirinha em sua casa afirmando falta de vocação, Deus perdoaria a promessa.

Anunciada ficou um mês e doze dias trancada em seu quarto, só saía para comer. Chorava a noite toda, a mãe pensava ser frustração em não ser freira, nunca imaginou que era saudade do Padre Ramalho. Noites insones se possuindo. Certa tarde Manuela, sua prima, foi visitá-la, conseguiu tirá-la daquele estado letárgico. Mostrou-lhe as noitadas de Maceió. A partir daquela Anunciada dedicou-se à boemia e aos homens.

Em certo janeiro ensoralado um turista grego, passageiro do Maru Costa, convidou-a para conhecer o navio. Fizeram amor no camarote. Ao acordar-se no dia seguinte, o transatlântico atracava no Recife, havia viajado como clandestina. Daí aceitar o emprego de “massagista” no navio foi um pulo. No dia seguinte o Maru Costa partiu para Tenerife, sete dias de viagem pelo Oceano Atlântico. Não foi difícil arranjar clientes. Comprou roupas a bordo. À noite entrava nos salões encantando homens e mulheres. Na semana de viagem ganhou tanto dinheiro que não acreditou. Com apenas 19 aninhos tornou-se “massagista” de alto luxo. Teve uma conversa com o comandante, ficou no camarote como viajante permanente. Anunciada engrenou sua vida, enviava cartas e dinheiro para mãe orgulhosa com a filha, dizia ser comissária de bordo.

A divina brasileira, como a chamavam, ficou embarcada em camarote privado durante semanas, meses, anos. Percorrendo o mundo.

Anunciada exerceu a profissão de massagista durante 14 anos, 4 meses e 2 dias inquilina do Maru Costa. Apenas uma vez retornou à Maceió, de avião, para o enterro de sua mãe. No Parque das Flores todos queriam falar ou ver a menina Anunciada que um dia partiu sem destino, continuava solteira, charmosa, rica, misteriosa. A bela mulher abafou, vestido negro decotado, não passou mais dias na cidade porque o navio ia partir de Sydney na Austrália para Amsterdã na Holanda. O comandante telefonou pedindo sua presença, ela fazia parte do patrimônio no navio.

Assim Anunciada viajou por todo mundo, conheceu homens de toda espécie, escandinavos, latinos, asiáticos, africanos. O felizardo que passou uma noite com Anunciada na cama, jamais a esqueceu. Durante esses anos ela teve 875 propostas de casamento, todas recusadas, seu destino é a liberdade, dizia. O nome de Anunciada ainda corre nos quatro cantos do mundo como de fosse uma feiticeira do amor. Quando o navio atracava nos portos já havia fila de clientes para receber a brasileira nos hotéis da cidade. Seu nome tornou-se lenda na Europa, no mundo.

Até que o navio Maru Costa teve sérios problemas, antes de se aposentar, antes de o explodirem, fez seu último cruzeiro, por coincidência o mesmo roteiro em que Anunciada embarcou anos atrás. Deu-lhe uma tristeza na “massagista”, sentia-se parte do navio. Ela estava disposta a esconder-se e explodir-se junto com o navio. Quando o Maru Costa atracou em Maceió de passagem, o céu estava ensolarado, o mar era verde esmeralda com matizes azuis. O coração de Anunciada disparou, acabou a depressão, arrumou-se, pegou suas malas, desembarcou para sempre em sua terra.

Quem quiser conhecer nossa heroína, Maria Anunciada, é só visitar  uma casa de massagem no bairro da Serraria. Ainda bela, aos 34 anos, ela atende com mais três jovens massagistas. Dizem que os clientes da casa preferem a coroa, por sua experiência e sabedoria. Os mais íntimos, ao ouvirem suas histórias, perguntam, “dos homens que teve a seus pés, qual o que mais amou”. Ela não hesita, afirma com segurança, sorrindo: “O primeiro amor ninguém esquece.”

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