sábado, 20 de outubro de 2018

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Zezé Motta será homenageada no Festival Internacional de Mulheres no Cinema

Zezé Motta recebe nesta quarta, dia 4, à noite, a homenagem do Festival Internacional de Mulheres no Cinema, FIM, que começa em São Paulo. Um reconhecimento à extraordinária carreira de uma das grandes atrizes brasileiras. Cinema, teatro e TV. E se o prêmio é de carreira, é indissociável uma outra faceta do talento da artista nascida em Campo dos Goytacazes, no Estado do Rio, em 1944. Aos 73 anos, ela exibe uma forma invejável – “Mas estou com uns quilinhos a mais”, brinca – e os graves estão bonitos como nunca.

“Meu pai, Luiz Oliveira, era músico e trabalhava com música erudita. Nunca conseguiu firmar uma posição nessa área e criou um grupo de chorinho. Ele me incentivava a ser cantora e quando decidi ser atriz me forçou a ter um diploma, porque não acreditava na profissão. Fiz o curso mais rápido, e tornei-me técnica em Contabilidade.”

O teatro veio antes do cinema, e ela foi crooner em São Paulo nos anos 1970. Em 1976, interpretou a lendária Xica da Silva no filme de Cacá Diegues, com quem fez mais quatro filmes, desde então.

A cena é emblemática. Transformou Zezé em ícone – Xica, com a carta de alforria na mão, avança para a câmera, na verdade para a igreja, que se fecha para impedir sua entrada. Xica da Silva pode ser a rainha do arraial do Tijuco, mas a sociedade dos brancos continuará a discriminá-la. “Essa cena é realmente maravilhosa. Foi a cena do teste que tive de fazer para conseguir o papel. Até hoje tenho a fita, que está esverdeando. Preciso restaurá-la.” Zezé a conserva como um talismã, como os numerosos troféus que possui. Por Xica da Silva, ganhou todos os prêmios do ano. Coleciona prêmios pelo conjunto da obra e o prestigiado troféu Oscarito, que premia uma grande personalidade por sua contribuição ao cinema brasileiro, no Festival de Gramado.

Como atriz e cantora – como cidadã -, Zezé tem lutado pela representatividade no audiovisual. Está agora nas telas num dos episódios do terror O Nó do Diabo. Teve uma participação destacada na etapa final de Do Outro Lado do Paraíso. “Muita gente achou que minha personagem e o quilombo foram mal aproveitados pelo autor, mas eu agradeço ao Walcyr Carrasco por chamar a atenção para um problema grave. Quando se fala em quilombo, todo mundo pensa no de Palmares, mas existem mais de 3 mil quilombos no Brasil atual, e os quilombolas são perseguidos por grandes proprietários com a conivência das autoridades. Acho que se trata de um grande tema para a ficção brasileira. Gostaria que a TV, que é tão popular, abordasse mais o assunto.”

Um prêmio como o que vai receber esta noite talvez estimule no imaginário do público a ideia de que atrizes vivem uma vida de glamour. “Tem glamour, sim, mas na verdade, e principalmente para o ator negro, é uma luta diária. Nesses 40 e poucos anos decorridos desde Xica da Silva, houve uma evolução, mas é preciso mais. Eu tenho trabalhado bastante, tenho meu espaço na mídia, mas e os demais? Os jovens? A luta continua. É permanente.”

A representatividade é uma batalha diária, num Brasil que ainda discrimina, persegue, mata. Zezé conversa pelo telefone com a reportagem, depois de participar de uma leitura para o próximo filme. Será dirigido por Jeferson De, jovem cineasta negro com quem ela tem tido uma parceria proveitosa desde que fizeram o curta sobre Carolina Maria de Jesus, a favelada que, nos anos 1950, com um livro contundente, expôs para o Brasil desenvolvimentista (indústria automobilística, bossa nova) a visão dos excluídos. Ao longo desses anos todos, Zezé Motta, por suas escolhas em filmes, novelas e séries, tem lutado pela dignidade e emancipação do negro. Uma guerreira.

Mas tem a cantora, e Zezé está feliz da vida por finalmente concretizar um sonho de 11 anos. “Há muito queria lançar um disco só de samba, mas tive de abrir mão do projeto, que só pude retomar no ano passado.”

O resultado é O Samba Mandou me Chamar, 8º disco solo, que está saindo pelo selo Coqueiro Verde Records e já teve um primeiro show de lançamento no Rio. No dia 27, haverá o segundo. E São Paulo? “Ainda não temos nada programado, mas com certeza quero lançar o disco na cidade em que comecei na música como crooner.” Desde o começo, a ideia era fazer um disco de sambas só com inéditos. “Ângela Leal contribuiu muito, nos emprestando o Teatro Rival para uma feijoada. Chamamos os grandes e os novos sambistas, que vieram e trouxeram quase 200 sambas. Desses, garimpamos uma seleção maravilhosa.” Mas o disco não é feito só de inéditos. Há muito tempo, Zezé queria gravar um velho êxito de Aracy de Almeida, Louco. “Louco, pelas ruas ele andava / O coitado chorava / Transformou-se até num vagabundo / Louco, para ele a vida não valia nada / Para ele, a mulher amada era seu mundo.”

O CD tem a participação de Xande de Pilates e Arlindo Cruz, antes da internação no ano passado, com quem canta Nós Dois, dele com Maurição. Zezé está radiante por cantar com amigos. “Enche o coração.” Com esse, são 14 discos, muitos solos. Com mais de 35 novelas, 40 filmes e personagens icônicas como Xica da Silva, embalada pela música de Jorge Ben Jor – “Xica da / Xica da / Xica da Silva, A negra” -, Zezé virou mito da negritude, e não apenas.

FESTIVAL INTERNACIONAL
DE MULHERES NO CINEMA
CineSesc e Espaço Itaú de Cinema Augusta. Até 11/7. www.fimcine.com.br

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Carlos Merten
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