Variedades

Vozes do Brasil

17/06/2018

Ney Matogrosso, 76 anos. Roberto e Erasmo, 77. Gil, Caetano e Milton, 75. Chico Buarque, 73. Gal Costa, 72. Maria Bethânia, 71. Aos 20, eles não imaginavam que o som que dava significado a suas existências, produzido por um engenhoso aparelho formado por um tecido musculoso no interior de suas laringes e amplificado por um alto-falante natural nas regiões da faringe, boca e nariz, teria prazo de validade. Ao viverem a sétima década, os principais timbres do Brasil lidam com a ação do tempo. Quem a usou bem, canta mais alto.

Gil está prestes a lançar seu disco, fisicamente, mais desafiador. Será o primeiro com canções inéditas depois de uma série de internações em 2016 para tratar de uma insuficiência renal que minou a saúde e o espelho da alma, a voz.

Em alguns momentos ao lado de Caetano, na turnê mundial que fizeram, sua voz foi ao limite, imprimindo ainda mais dramaticidade a músicas como Não Tenho Medo da Morte. “Ele estava em frangalhos na noite em que vi”, diz o pesquisador Zuza Homem de Mello, sobre um show de São Paulo. “Impressionante que tenha se recuperado.”

Gil tem outro complicador. Mesmo depois de 2007, quando foi submetido a uma cirurgia para retirar dois cistos das cordas vocais, sua postura diante de um microfone nunca foi das mais heterodoxas. Os falsetes gritados que marcam improvisos em regiões superagudas não medem esforços para alcançar as notas que imagina. Sua entrega é a de um homem que parece estar no palco pela primeira e pela última vez. “Gil fez muitos carnavais assim e eu briguei com ele várias vezes”, diz Caetano Veloso. “Em vez de descansar a voz, gritava mais e mais.” Ney Matogrosso ouviu do próprio amigo um arrependimento. “Ele me disse que os nódulos que surgiram foram por causa dos gritos que eu dava.”

Caetano está no lado oposto. Sem o mesmo brilho dos 40 anos, década de vida que os especialistas dizem ser o auge do vigor vocal, ele tem usado bem o vibrato espaçado que criou cantando em regiões de tonalidades confortáveis.

“É hoje a melhor voz de sua geração”, diz Homem de Mello. Questionado se faz algo para adiar a corrosão biológica, responde primeiro: “Sim, eu coloco meus filhos para cantar por mim”, diz, referindo-se ao projeto no qual se apresenta com os três herdeiros, Moreno, Tom e Zeca. E então, fica sério, resignado: “São músculos. As cordas vocais vão ficando flácidas, você passa a não ter mais controle sobre elas, ficam trêmulas, a respiração não é a mesma. Envelhecimento é isso”.

A profissional mais procurada por essa geração do meio artístico tem sido a fonoaudióloga mineira Janaina Pimenta, 44 anos. Alguns de seus pacientes são Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Ela concorda com a afirmação de que não há uma cultura de prevenção no meio, mas diz que existe recuperação intensa mesmo para casos dramáticos. “Aos 20 anos, eles cantam a noite toda, dormem pouco e já é o bastante para recuperarem. Aos 40, essa recuperação começa a ficar mais lenta. Aos 50, é ainda mais difícil.” A demanda de shows das novas gerações pode piorar o tempo de vida vocal em um futuro próximo. “Há artistas sertanejos que chegam a fazer 25 shows por mês.” Mesmo setentões que não viveram a mesma intensidade de agenda podem sofrer com práticas do passado. “Eles bebiam, fumavam, alguns se drogavam. Eles vão precisar de técnica para suprir a decadência física.”

Um dos casos recentes que ela cita como mais notórios foi o de Milton Nascimento, que tem um disco de voz e violão, sem músicas inéditas, para lançar ainda neste ano, com o violonista Wilson Lopes. O homem que Elis Regina chamou de “a voz de Deus” teve problemas que o deixaram dois anos sem cantar, 2015 e 2016. “Eu tive primeiro uma depressão e, então, o agravamento da diabete”, conta. Janaína diz que o estado de Bituca, ela o chama pelo apelido, preocupava. “Não conseguia andar, estava com a voz fatigada.” A saúde frágil trouxe rouquidão e fraqueza muscular e Milton começou a fazer exercícios, a princípio, a contragosto. “É como musculação, os músculos vão se recuperando.” A turnê de Bituca iniciada em 2017 seguiu, muitas vezes, com a doutora na plateia. “A recuperação tem sido assustadora”, ela diz. Outros profissionais não apostam tanto. “Não acredito que ele volte a ser o que era”, diz uma fonte que não se identifica. Em um dos shows, Milton improvisou um trecho com uma limpeza de timbre que surpreendeu Janaína. “Olhei para o técnico de som naquele instante e ele percebeu o mesmo que eu. Ficamos emocionados, mesmo depois de ver tantos shows.”

Milton diz que, apesar dos treinos, a força que segura seu canto continua saindo da alma. “É ela quem manda em tudo.” Ele começa a falar algo que deixa nas entrelinhas. “Pode ver que tem gente que é muito afinado mas que não passa… ah, melhor não falar isso.” Se cuida da voz de forma regrada, evitando ar condicionado ou líquidos gelados, diz apenas “não, isso nunca fez mal para mim. A única coisa que tenho de fazer é dormir”. Afinação, para Milton, seria uma preocupação? “Sempre fui muito preocupado com isso, agora não sou mais. Sai natural.” Ele diz que sente ter perdido extensão da voz, ficando mais limitado, mas que sonha em voltar a cantar antigas músicas em tons originais, como Caxangá.

Sua relação com a voz já começa de forma mítica. Ele mesmo conta ao jornal O Estado de S. Paulo.Aos 9 anos, estava na casa dos pais quando percebeu a voz engrossar. “Eu só gostava de vozes de mulheres, de cantoras, e saí correndo pela casa, desesperado. Não queria que minha voz ficasse grave nunca e dizia para meus pais que não queria voz grossa. Eu chorava e eles só diziam menino, isso passa.” Um dia, ao chegar ao escritório do pai, ouviu no rádio uma introdução com arranjo de cordas, um belo coral e, triunfalmente, a entrada de Ray Charles em um tom alto cantando Stella By Starlight. “Pronto, eu perguntei para meu pai quem era. Era Ray Charles. Corri do mesmo jeito, mas de felicidade, dizendo pai, homem pode cantar!.”

Homem sem voz na música brasileira pode cantar desde João Gilberto. Mais precisamente, desde seu álbum Chega de Saudade, de 1959, quando o fio naturalista, sem impostação, começou a derrubar as muralhas erguidas com muito vibrato na era do rádio. Chico Buarque, um descendente direto deste canto, é o aluno mais aplicado de Janaína. Ela compara sua performance de oito anos com a turnê do álbum e Caravanas e sente a melhora. “Está muito melhor. Ele acabou de me mandar uma mensagem dizendo que recebeu elogios nos últimos shows.” Chico assumiu-se um atleta vocal, seguindo desde o aquecimento diário, passando por todos os exercícios e terminando com o desaquecimento. “E, assim, ele foi ganhando massa muscular”, diz a fonoaudióloga.

A relação com a voz, para artistas que jamais pensaram em como chegariam aos 70, se tornou um ato pessoal e intuitivo. Ney Matogrosso, considerado dono de uma das mais preservadas cordas vocais de sua geração, diz que nunca fez nada para isso. “Só não entro em ar condicionado.” Moraes Moreira, preocupante por uma rouquidão limitante, prepara um disco pelo selo Discobertas com um single já lançado no Spotify. “Realmente, no momento eu prefiro o novo repertório, com o qual eu posso exprimir a minha voz aos 70 anos. Sou que nem cigarra e vou cantar até o papo estourar.” Zé Ramalho, de brilho intenso aos 68, diz que pensou no futuro. “Desde o início, há mais de 40 anos, procurei educar meu canto. Ficar atento sempre em relação à afinação é uma atenção que mantenho até hoje. Isso tem que ser de forma rigorosa. Não faço exercícios vocais antes de um show. Não uso “poções mirabolantes” nem há por que usar, você chega lá e canta!” Erasmo Carlos fala em um tom do quanto pior, melhor.

“Nunca fui cantor. Cantor é Ney Matogrosso, é Roberto Carlos. Quando fico rouco, acho que fico até melhor. A única coisa que não faço é gritar. Quero chegar ao coração das pessoas sem precisar fazer isso.” Joyce, 70 anos, regravando canção por canção do primeiro disco de sua vida, de 1968, diz que o tempo leva muita coisa, o polimento, a extensão, o brilho. Mas dá algo que não se tem aos 20 anos. “A voz ganha inteligência.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Julio Maria
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