domingo, 21 de outubro de 2018

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Adeus ao poeta

“ O Brasil, escrevera certa vez Gilberto Freyre, não se define, como cultura, apenas pelos discursos pronunciados nas academias de letras, de filosofia e de ciências ou nas suas universidades. Define-se também pelas estórias contadas em português espontâneo, rústico, rude, porém expressivo. Por cantigas também espontâneas: contos de analfabetos até pela sua sabedoria popular, por vezes, de modo surpreendente intuitivo e imaginativo”.

Ratificando o Mestre recifense, observa-se que Efigênio Moura, o Poeta–vaqueiro nasceu vate. Sua veia poética merece destaque no seu poema Zéfa. Uma história de um amor não correspondido. E, sendo assim, reproduzo algumas estrofes a fim de se analisar a beleza da poesia matuta.

Zéfa, você é ingrata!/ Ingrata Cuma ninguém/ É ingrata nessa vida./ Zéfa, a tua ingratidão/ Firiu meu coração/ E eu tenho no peito a firida./ Diga, Zéfa, diga, diga/Diga aqui no meu ouvido,/Prú Jisus de Nazaré,/ Diga o que foi qui  li fiz,/ Qui você morre e não diz/ Pruquê é qui num me qué./ Pru isso, meu bom patrão,/ Dêxo corrê tudo as séfa,/ E corro doido atrás da Zéfa/Prá dá-li um abraço. Então, / Dô-li um aperto de mão/ E rio, pra num chorá,/ E vou mim imbóra má acabá/ Nas brenha do meu sertão!”

 Pois bem, o saudoso jornalista-escritor José Jurandi de Oliveira trouxe à tona um livro recheado de saudades entre eles. Intitulado A morte do Poeta – Efigênio Moura, O Poeta-vaqueiro onde retrata a vida  e obra de seu companheiro de cantorias no hinterland alagoano.

O Prefácio da obra ficou a cargo do notável historiador Geraldo de Majella Fidelis de Moura Marques que, por sua vez, dissecou a personalidade daquele que soube se destacar nas suas lides literárias. “ Efigênio Moura fez parte de uma geração de poetas que fazia da poesia um sacerdócio, com toda a dignidade sacerdotal. A poesia foi a porta de entrada para a boemia, e a boemia foi a essência primordial da vida do radialista e poeta.Os saberes do agricultor, do morador das cidades do interior, eram a verdadeira  paixão de Efigênio Moura, mas foram as ondas do rádio que serviram para ampliar ainda mais a cultura popular, a poesia de cordel, os aboios, os cantos de trabalho nas farinhadas de sua infância no povoado Porangaba, em Atalaia”.

Certa vez, o biografado chegou no extinto Café Central onde se encontrava o velho poeta Jucá Santos. Chegando o ex-prefeito da capital, Sandoval Caju,  para se juntar à cantoria.E, de repente, Efigênio Moura improvisou versos imorredouros. “ Conheco muita madêra,/ Muitas de lei e valô;/ Provei inté o sabô/Duma ta de quixabeira…/ Fruta boa  dá jaquêra,/ Com seus troncos colossais,/ No mato tem araçás,/ Pau ferro dá no agreste:/ JUCÁ amarga pru peste,/CAJU é doce demais”,

Diga-se, de passagem, JJ como era conhecido do meio jornalístico, antigo sócio da Associação Alagoana de Imprensa, afirma nas suas pesquisas que Efigênio Moura a convite do saudoso Gileno Sampaio, então diretor da Rádio Educadora Sampaio, o convidou para ser o titular de um programa “Bom dia, sertão”. E, por isso, abrilhantou Palmeira dos Índios com sua verve de poeta genuinamente alagoano.

Finalizo escrevendo que,  na madrugada do dia 3 de setembro de 1966, Efigênio Moura  fora assassinado  miseravelmente por um tal de José Tiburcio. Anos depois, segundo o autor, fora trucidado por familiares que vingaram a morte do poeta-vaqueiro. Ficando, portanto, a saudade eterna do inolvidável cancioneiro popular. Organização: Francis Lawrence.

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